Comemorou-se ontem, 18 de julho, o Dia Nacional do Trovador. A escolha dessa data está associada a uma homenagem ao poeta Luiz Otávio, pseudônimo usado pelo dentista, Dr. Gílson de Castro, carioca nascido em 18 de julho de 1916 que, de tão dedicado a essa arte, teve a si atribuído o título de Príncipe dos Trovadores.
Devido à minha recente imersão ao universo da trova, apesar de elemento poético sempre presente em nossas vidas, procurei valer-me de informações de diversas fontes da Internet para dar corpo e validação a este post. Ao final, cito as fontes, por respeito e admiração aos autores, aos quais peço licença pela utilização e agradeço a contribuição.
Por alguns, considerada poesia menor, a trova é arte antiga, melhor diria, clássica. Tradição iniciada por volta do século XI d.C. , durante esse período as poesias passam a ser acompanhadas de músicas, o que perdurou por muito tempo, havendo inclusive remanescentes desta tradição em nossa famosa literatura de cordel, muito conhecida no nordeste brasileiro.
Os primeiros trovadores modernos surgiram no século passado na Espanha e Portugal, na esteira dos folcloristas que as recolhiam em meio ao povo. Tem sua origem na poesia trovadoresca medieval que evoluiu para o que hoje conhecemos como a trova moderna. Criação literária que mais destaque alcançou entre as formas poéticas medievais, originárias de Provença, Sul da França, expandiu-se no século XII por grande parte da Europa e floresceu por quase duzentos anos em Portugal, França e Alemanha.
De construção elaborada, parece ter sido fácil a sua feitura quando lida, tal a beleza da simplicidade que transporta. Ainda hoje, alguns homens de letras se recusam a reconhecer o valor da trova, considerando-a como consideram coisa sem valor intelectual.
Uma trova de Adelmar Tavares, advogado, professor, jurista, magistrado e poeta, nascido em Recife, em 16 de fevereiro de 1888, e falecido no Rio de Janeiro, em 20 de junho de 1963, que foi acadêmico da Academia Brasileira de Letras, quinto ocupante da Cadeira 11, reflete a importância, a grandeza e asimplicidade da trova e traz um precioso argumento contrário à essas opiniões.
Ó linda trova perfeita,
que nos dá tanto prazer,
tão fácil, - depois de feita,
tão difícil de fazer.
Que o leitor me desculpe, mas tenho que falar um pouco da técnica da trova, para mostrar que não é um simples arranjo de palavras, tão fácil como alguns julgam, mas também não tão difícil que impeça alguém de sensibilidade criar as suas. Um exemplo de simbiose perfeita entre a técnica e sensibilidade.
A trova tradicional é uma composição poética de quatro versos de sete sílabas poéticas (heptassilábico) cada. As sílabas poéticas são contadas pelo som, acompanhando a emissão natural da voz. Na contagem dos versos, o número de sílabas poéticas é contado somente até a última sílaba tônica. As restantes, após a tônica são desprezadas. Essa construção pode ser exemplificada numa trova muito conhecida, a seguir:
Eu/ vi/ mi/nha/ mãe /re/
zan/do
Aos/ pés/ da / Vir/gem/ Ma/
ri/a
E/ra_u/ma/ San/ta_es/cu/
tan/do
O /que_ou/tra /San/ta/ di/
zi/a
Quatro versos, sete sílabas poéticas e oito sílabas gramaticais (apenas o último verso contém nove)
O mais comum é encontramos trovas em que o 1º verso rima com o 3º e o 2º verso com o 4º. Em trovas mais antigas acontecem rimas do 1° verso com o 4° e do 2º verso com o 3º, além de do 1º verso com o 2º e do 3º verso com o 4º. Há ainda trovas em que se faz rima apenas do 1º verso com o 3º, mas isso não é bem visto e nem sempre aceito em concursos.
A trova, para ser bem feita, tem de ter um
achado. Achado é algo diferente, uma surpresa, uma conclusão no último verso. Adelmar Tavares diz : "Nem sempre com quatro versos setissílabos, a gente consegue fazer a trova; faz quatro versos, somente". Ou seja: não é trova se não houver o
achado.
Para exemplificar a presença do
achado numa trova, trazemos essa inspirada composição de Durval Mendonça:
Ao beijar a tua mão,
que o destino não me deu,
tenho a estranha sensação
de estar roubando o que é meu...
Porque o Destino não lhe deu a mão da mulher amada, e a sensação de roubar algo só pode acometer quem não possui aquilo que supostamente rouba. Supostamente rouba, ao mesmo tempo em que, no íntimo, a tem como sua: roubar aquilo que é seu. Mas como pode roubar aquilo que é seu? Porque, no fundo, não é seu. E é nesta contradição que reside o achado desta trova.
Longe de mim, querer criar aqui um tratado sobre a trova. Não disponho do conhecimento necessário a essa tarefa e, a minha incursão no estudo do tema é recente. Existem textos muitos ricos, com abordagens de diversos níveis, do teórico ao popular, de trovadores e estudiosos que se dedicam a esse elemento poético, como se costuma dizer, “desde as priscas eras”. Quero apenas, com a incorporação desse resumo de informações, divulgar essa nobre arte e trazer uma mínimo de conhecimentos que permita a compreensão da sua importância e beleza, como está sendo para mim, ao homenagear os trovadores nesse seu dia.
Vamos então ao que mais interessa. Mostrar algumas das trovas que me tocam, e espero que tenham o mesmo efeito em quem as leia. Um pequeno mosaico de simplicidade, alegria, humor, picardia, inocência.
Trovas populares de autores que desconheço. Se alguém souber, peço que me informem:
Eu sou bem pequenininha
do tamanho de um botão
carrego papai no bolso
e a mamãe no coração
Atirei um cravo n'água
de teimoso foi ao fundo
os peixinhos responderam
viva dom Pedro II
Nas pernas a “cola” é escrita
e, o professor espreitando
fica feliz quando a Rita
ergue a sai e vai colando
Morreram muitas piranhas
quer motivo comprovado ?
as pobrezinha comeram
um político afogado
Século 13: da novela de cavalaria espanhola Amadis de Gaula extrai-se a primeira trova independente — sem ser refrão de cantiga — de que se tem notícia, escrita em português arcaico e de autoria do poeta da corte de Dom Diniz, João de Lobeira:
Leonoreta fin roseta
Leonorzinha, fina rosinhabela sobre toda fror
bela acima de qualquer florLeonoreta nom me meta
Leonorzinha, não me ponhaem tal coita vosso amor
em tal tristeza vosso amor1900: De autoria Antônio Correia de Oliveira,
Sino, coração da aldeia,
coração, sino da gente.
Um a sentir quando bate,
outro a bater quando sente.
Do grande Machado de Assis Ao nosso espírito ardente,
na avidez do bem sonhado,
nunca o passado é presente,
nunca o presente é passado.
Uma do Osório Duque Estrada (autor na letra do Hino Nacional Brasileiro O amor perturbou-me tanto,
que este combate deploro:
querendo chorar, eu canto;
querendo cantar, eu choro!
Trova humorística da autoria de A. A. de Assis :
um homem de 70 e poucos anos, grande trovador fluminense.
Amigo/amiga, reparto
este espanto com você:
o parto não é mais parto;
é download de bebê.
Páro por aqui para o post não vira poste. Espero ter despertado no leitor a curiosidade e o interêsse em conhecer essa forma interessante da expressão poética. Com a facilidade da Internet, aqueles que se motivarem poderão encontrar inúmeras páginas ricas em informação e uma antologia universal de trovas.
Encerro a homenagem fazena a tentativa de construir uma trova, a primeira de minha vida – momento histórico - contaminado que fui, pela imersão a esse mundo mágico dos trovadores.
para a trova fiz um post
no blog do jopinando
o achado ficou tão ghost
nem eu mesmo estou achando
Comentem e enviem as trovas de sua preferência. E até de sua autoria.
O espaço é livre e a trova, mais ainda.
Jopin Pereira
Fontes: http://recantodasletras.uol.com.br/trovas/1143428
http://www.iraiverdan.com/visualizar.php?idt=1636970
http://pt.wikipedia.org/wiki/Trova
http://www.overmundo.com.br/overblog/origem-da-trova
http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=14&sid=156http://www.kathleenlessa.prosaeverso.net/